domingo, 10 de maio de 2009

Manifesto Transrealista - Rudy Rucker


Eu gostaria de defender aqui um estilo de Ficção Científica que eu chamo de Transrealista.

Transrealismo não tem muito de FC de verdade, é um tipo de literatura avant-garde.

Sinto que o Transrealismo é a única percepção válida na literatura atualmente.
O Transrealismo escreve sobre percepções imediatas de um jeito fantástico. Qualquer literatura que não seja sobre a realidade atual é enervante e vazia. Mas o gênero de realismo franco e direto já se consumiu por completo. Quem precisa de mais romances realistas assim?

O ferramental da Fantasia e da Ficção Científica, oferece meios de tornar mais consistente e intensa a 'ficção realista'. Utilizando de dispositivos do fantástico, é possível se manipular o subtexto. O ferramental familiar da FC - viagem no tempo, antigravidade, mundos alternativos, telepatia, etc. - são de fato arquétipos simbólicos da percepção; viagem no tempo é memória, o vôo é iluminação, mundos alternativos simbolizam a grande variedade de visões particulares do mundo, e telepatia nada mais é do que a capacidade de comunicação plena.

Este é o aspecto 'trans' da coisa.
O aspecto 'realismo' tem a ver com o fato de que um trabalho de arte para ser válido, deve tratar do mundo do jeito que ele é.
Transrealismo tenta então não somente tratar da realidade imediata, mas também de uma realidade superior, na qual a vida está embutida.

Os personagens devem ser baseados em pessoas de verdade.

O que torna a ficção comum tão insípida, é que os personagens são obviamente marionetes para a vontade do autor. As ações se tornam previsíveis e no diálogo é difícil dizer qual personagem supostamente está falando. Na vida real, as pessoas que você encontra, quase nunca dizem aquilo que você espera que elas digam. Ao longo do tempo e de forma contundente, você traz simulações de seus conhecimentos consigo, na sua cabeça. Estas simulações são impostas para você de fora para dentro; e elas não reagem a situações imaginadas como você poderia desejar. Se deixarmos estas simulações levarem os personagens, você pode evitar desligar o mecanismo de satisfação. É essencial para isso, que os personagens se encontrem de certa forma fora de controle, como as pessoas reais - afinal, o que se pode aprender ao ler sobre pessoas de mentira?

Em um romance transrealista, o autor freqüentemente aparece como personagem, ou a sua personalidade está dividida entre vários personagens. Dizendo assim parece até egoísta. Mas posso argumentar que usar a si mesmo como personagem não é egoísmo de verdade. É simplesmente uma necessidade. Se, de fato, você está escrevendo sobre percepções imediatas, então que outro ponto de vista senão o seu é possível?
É bem mais egoístico utilizar uma versão idealizada de si mesmo, fantasiando-a, e tendo este 'para-você' desabafando a sua vontade através de embalagens flexíveis escravas.

O protagonista transrealista não é apresentado como um tipo de super-herói.
O protagonista transrealista é um neurótico inútil, como nós mesmos sabemos ser.

O artista transrealista não pode predizer a forma final de seu trabalho.
O romance transrealista cresce organicamente, como se tivesse vida própria. O autor pode apenas escolher personagens e cenários, introduzir este ou aquele elemento fantástico e direcionar para certas cenas chaves.

Em condições ideais, o romance transrealista é escrito na obscuridade, sem uma linha geral ou esboço. Se o autor sabe precisamente como seu livro irá se desenvolver, então o leitor irá advinhá-lo também. E um livro previsível não nos interessa.

Todavia o livro deve ser coerente. Concorde comigo - a vida quase sempre não faz sentido.
Mas as pessoas não irão ler um livro que não tem enredo. E um livro sem leitores não é efetivamente um trabalho de arte.Um romance de sucesso, de qualquer tipo, deve carregar seus leitores consigo.

Como é possível escrever tal livro sem um esboço?

É semelhante a desenhar um labirinto.

Para desenhar um labirinto precisamos de um inicio (personagens e cenário) e alguns objetivos (cenas chaves). Um bom labirinto força-o a percorrer objetivos de uma forma coerente. Quando você desenha um labirinto, você começa com um caminho, mas deixa um monte de outros caminhos por percorrer. Escrevendo um romance transrealista coerente, você inclui um certo número de acontecimentos sem explicação através de seu texto. Coisas para as quais você não sabe a razão. Mais tarde você amarra estas pontas soltas, das narrativas ramificadas. Se nenhuma ligação está disponível, você volta atrás e a reescreve (como se apagando uma parede do labirinto). Apesar de a leitura ser linear, escrever não o é.

Transrealismo é uma forma de arte revolucionária.

A principal ferramenta no controle do pensamento de massa, é o mito da realidade consensual. De mãos dadas a este mito está a noção da 'pessoa normal'. Não existe a 'pessoa normal' - basta olhar seus parentes, as pessoas que você está em condições de conhecer bem. São todos esquisitos, em certo nível abaixo da superfície. Ainda assim, a ficção convencional muito comumente nos mostra pessoas normais em um mundo normal. Conforme você trabalha sob o sentimento de ser o único estranho, então você passa a se sentir fraco e apologético. Se você está ávido para seguir o establishment, e com medo de fazer marolas - é melhor ficar de fora.

As pessoas hoje são esquisitas e imprevisíveis, por isso é tão importante usá-las como personagens, ao invés dos bonecos de papel do bem e do mal, da cultura de massa.

A idéia de quebrar o consenso da realidade é ainda mais importante. É ai que o ferramental da FC é particularmente útil. Cada mente é uma realidade em si. Enquanto as pessoas estiverem enganadas, acreditando na realidade do noticiário das 6:30, elas andarão em rebanhos, como ovelhas.

O 'presidente' nos assusta com a 'guerra nuclear' e nos leva a loucura, e pelo medo da 'morte' corremos para 'comprar bens de consumo'. Quando de fato, o que é realmente preciso é que você desligue a televisão, coma alguma coisa e saia para dar uma volta, com pensamentos infinitos, misturando-se com infinitas percepções.

Sempre haverá lugar para a literatura de Ficção Científica. Mas não há razão para deixar que a condução de toda nossa escrita, seja de modo limitada e reacionária.

Transrealismo é o caminho para a verdadeira Ficção Científica artística.

Rudy Rucker



- O Manifesto Transrealista apareceu no Boletim número 82 da SFWA (1983) e foi republicado na antologia 'Transreal' (1991) de Rucker e em Seek! (Four Walls Eight Windows, 1999).

Foto: Santa Cruz Rollergirls - de Rudy Rucker.